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Menos filosofia e mais futebol

21/04/2008

Gente, futebol e razão não andam juntos. Se andassem, seria algo chatissímo. Como provam o texto e o vídeo abaixo – notem que, em ambos, o clímax se dá com bola rolando.

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Coluna de José Roberto Torero – Folha de S.Paulo (2003)

O futebol é muito mais velho do que pensamos. Recentes escavações na Macedônia trouxeram à luz páginas de um jornal chamado Alfa e Ômega com mais de 2.000 anos.
Nesses papéis, escritos por um repórter de nome Zeugmo, vemos que os gregos praticavam o esporte bretão muito antes dos bretões. Copio aqui as milenares palavras para deleite dos leitores:

“A final do Campeonato Grego deste ano, entre os times do Liceu e da Academia, foi emocionante. Mal começou a partida, e o time da Academia fez um belo ataque: Sócrates tocou a esfera para Platão, e este rapidamente a lançou para Pitágoras, que a devolveu para Sócrates, com o que a bola desenhou um belo triângulo escaleno. Então, Sócrates dominou a esfera, girou seu corpo e disparou contra o arco do Liceu.
A equipe do Liceu apenas pôde assistir à trajetória da esfera, que bateu na haste superior – que os escravos chamam de travessão – e caiu sobre a linha, diante do olhar apavorado do arqueiro Aristóteles.

O problema é que a esfera caiu numa poça d’água, ficando com metade para dentro do arco e outra metade parte para fora.

Imediatamente, os jogadores formaram uma roda em torno da esfera, e começou uma discussão entre os membros da Academia e os do Liceu.

“Não poderemos contar esse ponto”, disse o arqueiro Aristóteles. “Só meia esfera está adiante da linha, e, logicamente, uma metade não pode ser uma totalidade”, completou.
Platão rebateu: “Com o devido respeito, brilhante Aristóteles, não há fração que não contenha parte do todo, e, sendo assim, o todo, ao menos em parte, está adiante da linha. Isso nos obriga a admitir conceitualmente a existência desse ponto”.

“São sábios os argumentos de Platão”, secundou Epicuro, lateral-esquerdo do Liceu, “mas a parte não contém em si o espírito do todo, tanto que se cortarmos o dedo de um homem, ele cairá no chão, deixando de cumprir suas funções naturais. Daí, concluo que a alma está no todo, mas não na parte, com o que não podemos validar esse tento”.

“Pobre é a discussão que fica sem o pensamento de Epicuro”, disse Zenon, ponta-direita da Academia, “porém a animação, no reino inanimado, não se dá por veias, mas em essência. Logo, se partimos ao meio uma pedra, uma gota d’água ou a esfera em questão, as duas partes terão idênticas qualidades, o que nos leva a considerar esse gol como legítimo”.

E assim a discussão arrastou-se por mais uma hora. Nas arquibancadas, os acadêmicos e os liceístas vibravam a cada argumento e agitavam freneticamente suas bandeiras.
Porém, quando o carro de Apolo encerrava no céu a sua viagem, Beócio, o tosco zagueiro central da Academia, irritado com aquela demora, deu um tremendo chute na esfera, mandando-a definitivamente para dentro do arco adversário. Como a bola ainda estava em jogo, o juiz Demócrito validou o tento.

Aristóteles, irado com a atitude antifilosófica de Beócio, não quis mais argumentar e deu-lhe um soco. Depois, Platão chutou Aristóteles, Epicuro mordeu Sócrates, e logo começou uma gigantesca luta, com todos os atletas agredindo-se mutuamente.
Definitivamente o futebol não é o esporte da razão.”

Zeugmo de Estagira, enviado especial a Atenas, para o Alfa & Ômega.

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